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sábado, 17 de julho de 2010

Aquela antiga frase do Pelé...



Dia desses fui cobrir a reintegração de posse dos prédios do Condomínio Ilhas do Sul, no Central Parque, que foram ocupados por diversas famílias buscando finalmente um lugar para morar.

Cumprindo ordens da Justiça, um grande aparato foi preparado para a reintegração, reunindo policiais, bombeiros (para casos de emergência), assistentes sociais, advogados, membros de comissões de direitos humanos, e é claro, a imprensa.

Enquanto jornalista, a busca incessante (e quase sempre utópica) pela imparcialidade não me permitem comentar o que vi. Portanto vai falar o “lado pai”.

Uma baita chuva acompanhada de vento frio formou o cenário. Sem pavimentação alguma, os arredores dos prédios viraram um lamaçal, dando um tom ainda mais dramático. Os caminhões encarregados das mudanças atolavam e espalhavam lama por todo o lado. Depois de uma conversa com assistentes sociais, as famílias empacotavam seus pertences e os transportavam debaixo de chuva.

Não tomo partido das famílias que, embora possam ter sido enganadas, em sua maioria tinha ciência da situação do local e da instabilidade de se morar ali.

Entretanto, minhas atenções se voltam para o estado de desolação das crianças. Pouco importa se houve erro de seus pais ou insensibilidade institucional da Justiça. Para elas, era momento de tristeza acordar numa manhã fria, como se fosse uma outra qualquer, e ver policiais rondando seu lar.

Um colega repórter de uma rádio local, mesmo agasalhado, tremia muito e me confidenciou ter perdido a sensibilidade dos dedos por causa do frio. Mães carregavam seus filhos já na parte exterior dos edifícios, enquanto os homens retiravam a mudança. Algumas dessas crianças com a mesma idade da minha filha.

Num cenário cinzento, gelado, molhado e sujo (por causa da lama), essas crianças tiveram sua rotina alterada bruscamente. E bem sabemos o quanto a rotina é importante. Um dia que ficará marcado negativamente para elas. Há mais de 40 anos, no discurso após fazer seu milésimo gol, Pelé disse: “Pensem nas criancinhas!”. Sei que os pais que levam seus filhos para morar em locais irregulares, o fazem por falta de opção. Mas às vezes é preciso insistir na procura por alternativas. Digo a eles, à Justiça e ao Poder Público: pensem nas criancinhas. Agora, com licença. Vou pensar na minha.





quinta-feira, 4 de março de 2010

Minha filha e as agulhas



Agora já mais velha, precisei levar minha filha para tomar soro no hospital. E me lembrei do texto de estreia da coluna "Pensamentos do Jota" no Jornal Bairro em Foco, que aconteceu em agosto de 2009. Segue o texto!

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Respira fundo... três, dois, um! Ufa, vamos lá. É a estreia desta coluna, na qual, segundo meu editor, vou ter liberdade para escrever o que penso e sobre o que eu quiser. Fiquei lisonjeado por essa confiança dele em mim. Obrigado, Marcos! E já que é uma estreia, vou falar de outra estreia (bem pessoal) minha: a paternidade.

Na segunda quinzena de abril nasceu a minha primeira filha. O “pai-fotógrafo” aqui aguentou bem assistir o parto. Talvez tenha sido a frieza jornalística que me motivou mais a registrar o momento do que lembrar se tinha sangue. É teste de sei lá o que, tubinho que entra, limpezas, leva o bebê para cá e para lá, vacina... Opa! É das benditas agulhas que furam a minha filha que vou falar.

Dia desses, agora já crescidinha, a levamos para uma consulta de rotina e o pediatra pediu que fizéssemos dois exames preventivos: urina e sangue. O primeiro foi até bem. Agora, o segundo, meu amigo! Quem é pai sabe do que estou falando. E não é papo de “tiozão”, pois ainda nem cheguei aos trinta anos. E se você é mãe, não vale. Elas são mais fortes, como foi minha esposa.

Chegamos ao laboratório, a esposa explicando o que deveria ser feito, enquanto eu carregava minha pequena. Antes tão contente, naquele momento parecia prever o que havia de vir. Vi nosso reflexo no espelho e ela estava com olhar triste, coitadinha.

“Traga ela aqui”, disse a enfermeira. Com todo o medo que tenho de agulha, somado à dor no coração, coloquei o bebê na maca. Minha esposa ao lado. Quando a moça arregaçou as mangas da roupinha, a criança começou a chorar e quase fui junto. Na hora de amarrar aquela borrachinha no braço dela, saí da sala, antes que batesse na enfermeira. Imagina se presenciasse a picada! Só ouvi o pranto cada vez mais intenso e aquilo quase me mata. A tecnologia deveria inventar algo para não precisar arrancar o sangue nos exames. Raio-x, raio laser ou o raio-que-o-parta, desde que não fure!

É complicado pensar que vou ter que permitir que minha filha tenha alguns sofrimentos para um bem maior. Antes de ser pai, se alguém me contasse isso, diria que é superproteção. Na realidade é mesmo. Mas agora sei que superproteção tem uma justificativa: amor. De qualquer forma, pelo menos na teoria, já sei que não vou poder protegê-la de tudo. Mas que vai doer em mim duas vezes mais do que nela, isso vai.